Na rádio, o locutor anunciou um quinteto de jazz com dois sopros. A Rita lembrou-se que tinha um, no coração. Era o do saxofone.

O panfleto


Isaurinha tremeu. O estrondo quase deitava a porta abaixo.
– Abram! É a polícia!
O Joaquim só podia ter sido denunciado por causa daquele panfleto. Sem saber o que fazer, apoiou-se na mesa que continuava a balançar. Há meses que precisava de um calço.
Enfiou os dedos apressados na algibeira das calças do marido. Tirou de lá a folha de papel impressa a vermelho. Dobrou-a em oito, calçou a perna coxa da mesa e foi abrir a porta. O cabo e o soldado da GNR irromperam pela casa dentro. Atrás deles, um civil de gabardina.
– Um PIDE, pensou.
Quando se virou, Joaquim já enfardava o terceiro sopapo. Um esguicho de sangue manchou a parede caiada. O bebé chorava.
O PIDE, apoiando-se na mesa, agora estável, berrou: Com que então és comunista...
Os outros reviravam tudo. Em vão.
Isaurinha, que nunca tinha aprendido a ler, questionava-se sobre o significado de «comunista».
Ao ser arrastado para fora de casa, Joaquim lembrou-se que nunca vira o mar. No forte de Caxias, tinham-lhe contado, quando a maré enchia, era preciso tirar a água das celas com um balde para não se morrer afogado. Mas, naquele momento, o que o intrigava mais era como é que eles não tinham conseguido dar com panfleto.

espectro



o cheiro dela ainda paira como uma neblina no corredor. deixou um rasto subtil de perfume que só o nariz dele detecta e identifica. naqueles dias que nunca mais acabam e se esticam até ao cair da noite e em que ela, mais uma vez, não aparece, ele arrasta-se até lá de narinas dilatadas. e consola-se com o seu nariz de perdigueiro.
o tempo, comentou ela no dia em que a sentiu mais próxima, acabaria por resolver tudo e tudo sarar. queria tanto metê-la na cama que foi incapaz de a contrariar. de lhe falar das lâminas afiadas do tempo a retalha-lo lentamente, sempre que ela não lhe aparece. daquela dor, quase imperceptível, mas constante. agora, é ela a dizer que tudo está pior. dilata outra vez as narinas e segue-lhe o rasto até ao fim do corredor. desta vez, para apagar a luz que ela deixara intermitente.

Parado no semáforo


O semáforo está vermelho. O rapaz olha de soslaio para a faixa do lado. O homem ao volante da pick up tem ar de gangster mexicano. Fuma. O braço esquerdo pende para fora da viatura. Leva o cigarro à boca e inala profundamente, antes de deixar cair a ponta por apagar na estrada. O rapaz indigna-se: «Amigo, deixou cair uma beata na via pública…»
O gangster com ar de mexicano remexe no porta-luvas com a mão direita. Saca de um revólver reluzente e aponta-o.
O sinal fica verde. O rapaz engata a primeira, mas hesita. «Não me vai matar por causa de uma beata de cigarro…»
«Já matei por menos», responde o homem, premindo o gatilho.