espectro



o cheiro dela ainda paira como uma neblina no corredor. deixou um rasto subtil de perfume que só o nariz dele detecta e identifica. naqueles dias que nunca mais acabam e se esticam até ao cair da noite e em que ela, mais uma vez, não aparece, ele arrasta-se até lá de narinas dilatadas. e consola-se com o seu nariz de perdigueiro.
o tempo, comentou ela no dia em que a sentiu mais próxima, acabaria por resolver tudo e tudo sarar. queria tanto metê-la na cama que foi incapaz de a contrariar. de lhe falar das lâminas afiadas do tempo a retalha-lo lentamente, sempre que ela não lhe aparece. daquela dor, quase imperceptível, mas constante. agora, é ela a dizer que tudo está pior. dilata outra vez as narinas e segue-lhe o rasto até ao fim do corredor. desta vez, para apagar a luz que ela deixara intermitente.

0 Comments:

Post a Comment



Mensagem mais recente Mensagem antiga Página inicial