O panfleto


Isaurinha tremeu. O estrondo quase deitava a porta abaixo.
– Abram! É a polícia!
O Joaquim só podia ter sido denunciado por causa daquele panfleto. Sem saber o que fazer, apoiou-se na mesa que continuava a balançar. Há meses que precisava de um calço.
Enfiou os dedos apressados na algibeira das calças do marido. Tirou de lá a folha de papel impressa a vermelho. Dobrou-a em oito, calçou a perna coxa da mesa e foi abrir a porta. O cabo e o soldado da GNR irromperam pela casa dentro. Atrás deles, um civil de gabardina.
– Um PIDE, pensou.
Quando se virou, Joaquim já enfardava o terceiro sopapo. Um esguicho de sangue manchou a parede caiada. O bebé chorava.
O PIDE, apoiando-se na mesa, agora estável, berrou: Com que então és comunista...
Os outros reviravam tudo. Em vão.
Isaurinha, que nunca tinha aprendido a ler, questionava-se sobre o significado de «comunista».
Ao ser arrastado para fora de casa, Joaquim lembrou-se que nunca vira o mar. No forte de Caxias, tinham-lhe contado, quando a maré enchia, era preciso tirar a água das celas com um balde para não se morrer afogado. Mas, naquele momento, o que o intrigava mais era como é que eles não tinham conseguido dar com panfleto.

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